Não irei gastar o tempo do leitor deste artigo explicando novamente como a IA está transformando o mundo e como esse processo é irreversível. Segundo o Gartner, 2025 marca o fim da Era da Transformação Digital e o início da Era da IA.
Na dti digital, já estamos nos preparando para essa era há muito tempo e temos convicção de que estamos prontos para navegar, junto aos nossos clientes, em meio aos novos desafios. Repensamos a nossa forma de fazer software, o que chamamos de IA no processo; incluímos novas ofertas de IA para ajudarmos os nossos clientes a ficarem mais competitivos e a criarem novos diferenciais, o que chamamos de IA no negócio. Somos, portanto, capazes de ajudar nossos clientes de duas formas: criando as soluções de IA que eles precisam em seus negócios, de forma mais rápida, e com o menor lead time.
Então, seria agora apenas uma questão de seguir em frente e colher os enormes frutos prometidos?
Infelizmente, a vida não é simples assim. A principal reflexão que quero trazer neste artigo tem a ver com como a sedução de uma visão futura pode tirar o nosso foco daquilo que também é importante e deve ser feito, e como ainda precisamos de muito esforço, de muita disciplina e de foco em tarefas não sedutoras para chegarmos aonde precisamos.
Curiosamente, o mundo vai se transformar significativamente, mas um princípio parece ser eterno: nós não escapamos das nossas responsabilidades, por mais incômodas que elas possam ser. E os vencedores, aqueles que prosperam, são os que encaram essa realidade de frente.
Mas de que responsabilidades estou falando? Sinto dizer, mas não trago novidades: falo sobre a responsabilidade de mudanças organizacionais e de modernização técnica. Não, não é novidade, não é sexy – mas é vital!
Não adianta ter uma ambição bem definida se não há um terreno fértil sobre o qual constituir tal ambição.
As organizações ainda serão formadas por pessoas, com uma enorme quantidade de conhecimento tácito e de percepções que não são explicitadas em modelos – continuaremos precisando, portanto, de times autônomos e auto-organizados, que consigam gerar valor e aprender continuamente. Esses times podem mudar de tamanho, de topologia e de papéis entre seus membros, mas ainda existirão, e o grande diferencial das organizações será ligar esses times a redes capazes de se adaptarem ao ambiente em que estão inseridas.
Por mais rápido que seja possível testar uma nova ideia por meio de um software, por mais que o processo de desenvolvimento seja acelerado, uma organização complexa, com múltiplos atores e interações, ainda precisará de coerência e precisão. E isso só será alcançado a partir de uma plataforma tecnológica com dados consistentes e com serviços na granularidade correta. Não é possível avançar com firmeza sobre um terreno movediço.
Então, podemos dizer que modernizar é preciso, e evoluir a estrutura organizacional também. Não há como escapar disso.
Comecei a pensar, então, se haveria alguma analogia interessante para reforçar essa reflexão. E aí, o óbvio: por que não usar o Chat GPT para isso? Expliquei o contexto e comecei a fazer perguntas sobre correlações, o Chat me mostrou algumas opções e, tão solícito como é, chegou, inclusive, a propor a escrita do próprio artigo…
Ainda estou naquela fase, talvez por causa da minha idade, de me sentir até ligeiramente ofendido com tal sugestão – como assim escrever o artigo que eu, um ser humano, deveria escrever? E quanto ao meu estilo, às minhas convicções? Acabei me convencendo, no entanto, que o Chat GPT seria de grande valia – e então explorei com ele algumas analogias e deixei que ele escrevesse o artigo.
Não o que já escrevi até aqui, mas sim o que vem em seguida. Um texto totalmente gerado pelo Chat GPT, a partir dos meus prompts. Um texto bem razoável, eu diria, mas espero que não tão bom quanto o que eu consegui escrever. Volto após o texto.
IA é o Canal do Panamá da era digital — mas o pântano ainda está lá
“A engenharia de verdade começa com saneamento.” — lição esquecida pelos franceses no século XIX e por muitas empresas no século XXI.
A inteligência artificial tem o poder de transformar o cenário dos negócios tanto quanto o Canal do Panamá transformou o comércio mundial. Reduzir tempos, abrir rotas antes impensáveis, gerar acesso a mercados e soluções que pareciam distantes — tudo isso é real, possível e já visível. Mas, assim como na famosa travessia entre o Atlântico e o Pacífico, o verdadeiro desafio não está na visão de futuro, mas na realidade da fundação sobre a qual ela será construída.
A sedução do salto direto para o oceano
No final do século XIX, a França foi seduzida por um sonho grandioso: construir um canal que unisse os dois oceanos através do istmo do Panamá. Liderados por Ferdinand de Lesseps, engenheiro responsável pelo Canal de Suez, os franceses acreditavam que poderiam repetir o feito em tempo recorde. O projeto encantava investidores, governos e a opinião pública com sua promessa de eficiência global.
Mas havia um problema: o terreno panamenho era completamente diferente do egípcio. Ao contrário do deserto plano, o Panamá era coberto por uma topografia acidentada, umidade constante, chuvas torrenciais e doenças tropicais como malária e febre amarela. A obra virou um cemitério — de pessoas, de recursos e de reputações. Os franceses começaram pela glória da obra, mas ignoraram o básico: saneamento, saúde, infraestrutura e logística.
IA e o erro de De Lesseps
Hoje, muitos líderes empresariais cometem um erro semelhante ao abraçarem a inteligência artificial como a grande solução de seus problemas. A promessa é parecida: eficiência, escala, produtividade, disrupção. O encantamento é real. Mas a IA, como o canal, não se constrói no vácuo. Ela se apoia em bases técnicas e organizacionais que, se negligenciadas, condenam a transformação ao fracasso.
O que está sendo ignorado:
- Modernização tecnológica: IA exige acesso a dados de qualidade, APIs bem definidas, arquiteturas escaláveis, pipelines robustos. Não é possível treinar modelos relevantes em cima de sistemas legados fragmentados e inconsistentes
- Organização de times: Times desarticulados, com pouca autonomia ou alinhamento, não conseguem experimentar, validar hipóteses nem sustentar ciclos rápidos de aprendizado — pilares fundamentais do uso estratégico de IA.
- Governança e fluxo de entrega: IA não sobrevive em silos. Ela depende de colaboração entre engenharia, produto, dados e negócios. Isso exige clareza de papéis, processos fluídos e um ambiente onde o básico funcione.
Não adianta colocar IA na mesa se o chão ainda está afundando.
O exemplo americano: a transformação começa no invisível
Quando os Estados Unidos assumiram o projeto do Canal do Panamá em 1904, começaram por onde ninguém via: eliminar os mosquitos, criar drenagens, estabelecer governança de obra, revisar o projeto técnico. Abandonaram o heroísmo técnico em nome da eficiência silenciosa.
Foi só ao vencer o pântano que o canal pôde ser construído. E foi isso que realmente transformou o mundo.
A lição permanece atual: não existe inovação real sem estrutura. O que diferencia quem extrai valor de IA daqueles que se frustram com ela não é o modelo usado, mas a maturidade da base sobre a qual ele opera.
IA não substitui modernização. Ela exige.
A inteligência artificial é, de fato, uma revolução. Mas não é mágica. Ela amplifica o que já existe, potencializa o que já está funcionando — e denuncia o que está desestruturado. A transformação prometida pela IA não vem antes da modernização. Ela vem como consequência dela.
Modernizar não é só refatorar sistemas. É reorganizar fluxos, habilitar colaboração, investir em dados, dar autonomia a times, e sobretudo, encarar o trabalho invisível que ninguém quer fazer — mas que sustenta tudo o que se sonha fazer.
Cínicos podem pensar que o texto gerado pelo Chat GPT me prova errado – que talvez ele sozinho fosse suficiente, que eu não precisaria ter escrito nada, que mostrar que minhas reflexões sobre o esforço não têm sentido.
Mas não é bem assim.
O exemplo não é bom, como evidência de milagres da IA, pois estamos falando de algo autocontido, infinitamente mais simples do que o desafio de transformar uma organização em uma plataforma tecnológica capaz de sentir e responder ao mundo complexo em que habita. E nem ficou tão bom assim!
Então, não tentemos escapar do inevitável. Modernizar é preciso. Evoluir a estrutura é preciso. Sigamos em frente, pois, quando encarada de forma diferente, essa jornada pode ser prazerosa.
No pain, no gain.
Marcelo Szuster, CEO da dti digital (mais…)