Já faz 30 anos que o Java foi lançado, mas a linguagem continua relevante mesmo depois de todo esse tempo. Mas qual o motivo para isso?
Ocupando a quarta posição no Tiobe Index e o quarto lugar no relatório State of the Octoverse 2024 do GitHub, o Java se reinventou e ainda é relevante para a criação de soluções.
A resposta para isso está na constante evolução e adaptação às necessidades do mercado.
Neste artigo baseado no episódio #213 do nosso podcast, vamos mostrar como o Java continua sendo uma escolha sólida para desenvolvedores que buscam criar soluções digitais robustas e de alta performance.
Sumário
- 1 Por que o Java continua entre as 5 linguagens mais populares após 30 anos
- 2 Por que o Java 8 foi um marco?
- 3 O que são threads virtuais e como elas funcionam
- 4 Outras inovações técnicas que transformaram o Java
- 5 Ecossistema Java: frameworks e ferramentas que potencializam a linguagem no ecossistema Java
- 6 Estratégias para modernização de sistemas legados
- 7 Como lidar com breaking changes e dependências obsoletas
- 8 Qual é o futuro do Java para os desenvolvedores?
- 9 Conclusão
Por que o Java continua entre as 5 linguagens mais populares após 30 anos
A linguagem nasceu em 1995 com o princípio “write once, run anywhere” (escreva uma vez, execute em qualquer lugar), revolucionando o desenvolvimento de software com sua portabilidade. Esta característica continua sendo um diferencial competitivo mesmo em 2025.
O Java foi a primeira linguagem pioneira com o princípio de run anywhere. Isso quer dizer que ele foi trazido com o princípio de ser executado em qualquer plataforma. Enquanto outras linguagens, como o .NET, só alcançaram essa capacidade recentemente (o .NET Core surgiu em 2015), o Java oferece essa vantagem desde sua concepção.
Além disso, o ecossistema Java é vasto e maduro, com bibliotecas para praticamente qualquer necessidade de desenvolvimento. Grandes empresas continuam investindo na plataforma, o que garante sua estabilidade e evolução contínua.
Por que o Java 8 foi um marco?
O Java 8, lançado em 2014, representou um marco na história da linguagem. Foi quando a Oracle decidiu acelerar o ritmo de evolução para acompanhar as demandas do mercado.
Desde então, a linguagem incorporou recursos modernos como expressões lambda, streams API, e mais recentemente, threads virtuais e records, reduzindo significativamente a verbosidade que era uma das principais críticas à linguagem.
O modelo de lançamentos semestrais
Desde o Java 9, lançado em 2017, a Oracle adotou um modelo de lançamentos semestrais, com novas versões em março e setembro. Esta estratégia acelerou drasticamente a evolução da plataforma.
Em 2025, já estamos no Java 23, com inúmeras melhorias implementadas em um ritmo que seria impensável no modelo anterior. Este ciclo rápido permite que o Java responda de forma ágil às necessidades do mercado e se mantenha competitivo se comparado com as linguagens mais recentes.
O modelo também estabeleceu versões LTS (Long-Term Support), como o Java 17 e o Java 21, que recebem suporte estendido, oferecendo estabilidade para ambientes corporativos.
O que são threads virtuais e como elas funcionam
Uma das inovações mais impactantes do Java recente são as threads virtuais, introduzidas como preview no Java 19 e estabilizadas posteriormente. Elas representam uma revolução na forma como a linguagem lida com concorrência e processamento assíncrono.
Diferentemente das threads convencionais, que são gerenciadas pelo sistema operacional e consomem aproximadamente 1MB cada, as threads virtuais são gerenciadas pela JVM e pesam apenas alguns KB, permitindo a criação de milhões delas simultaneamente.
Pablo Zagnoli, Tech Leader, explicou durante o episódio #213 do Entre Chaves que as threads convencionais são gerenciadas pelo próprio sistema operacional, onde delega um núcleo físico ou virtual, enquanto as threads virtuais são gerenciadas pela própria JVM do Java.
Ganhos de performance
O impacto das threads virtuais em sistemas reais é impressionante. Pablo compartilhou um case de sucesso no episódio #213 do nosso podcast onde a equipe atualizou para o Java 21, que deixava a rotina de regeneração de saldos e custos muito pesada. Porém, com a migração para threads virtuais, eles ganharam cerca de 98% de performance.
Este não é um caso isolado. Sistemas que antes demoravam uma semana para processar determinadas rotinas passaram a conseguir concluir o mesmo trabalho em menos de um dia, simplesmente aproveitando melhor os recursos computacionais disponíveis.
Como migrar
Uma das vantagens das threads virtuais é a facilidade de implementação. Marcos Miranda, Arquiteto de Software, disse no nosso podcast que a implementação da thread virtual é tão simples quanto a convencional. Na verdade, muitos desenvolvedores consideram que é até mais simples que o modelo tradicional.
O principal benefício está no gerenciamento automático das threads durante operações bloqueantes. No fim, a ideia principal dessa funcionalidade é a possibilidade de fazer outra coisa enquanto espera respostas.
Isso é particularmente útil em aplicações que fazem muitas operações de I/O, como consultas a bancos de dados ou chamadas a APIs externas.
Outras inovações técnicas que transformaram o Java
ZGC
O Z Garbage Collector (ZGC) é outra inovação que melhorou drasticamente o desempenho do Java. Este coletor de lixo trabalha com menos custo para o sistema operacional, reduzindo significativamente a latência nas aplicações.
O princípio por trás do ZGC é simples, mas eficiente: ele foca nos objetos que ficam pouco tempo na memória, deixando de lado aqueles que já sobreviveram por mais tempo.
Records e Pattern Matching
Os records, introduzidos como recurso estável no Java 16, representam uma forma concisa de declarar classes imutáveis que servem principalmente como contêineres de dados.
Pablo Zagnoli compartilhou no nosso podcast que gostou bastante da funcionalidade, que é algo que o .NET já tem. Acaba sendo uma forma de implementar os modelos de dados com menos custo e menos código também.
Já o pattern matching no switch, outra adição recente, simplifica significativamente o código ao permitir verificações de tipo e extração de valores em uma única operação.
Foreign Function & Memory API
A Foreign Function & Memory API, introduzida como preview no Java 20, facilita a integração do Java com código nativo, tornando esse processo menos propenso a erros e mais fácil de manter.
Ele veio para permitir uma interação mais simples com o código nativo do Java, com uma complexidade mais manutenciável.
Esta API é particularmente útil para aplicações que precisam de alto desempenho em processamento de dados ou que necessitam integrar com bibliotecas nativas escritas em C ou C++.
Ecossistema Java: frameworks e ferramentas que potencializam a linguagem no ecossistema Java
Spring
O ecossistema Java é fortalecido por frameworks robustos, sendo o Spring o mais proeminente deles. Por isso, é comum ver muito o Spring caminhando junto com o Java, destacando como o framework evoluiu para tornar o desenvolvimento mais simples e produtivo.
O Spring Boot, em particular, revolucionou a forma como aplicações Java são desenvolvidas, eliminando grande parte da configuração manual que era necessária anteriormente.
Spring MCP
O Spring MCP é uma iniciativa recente que demonstra como o ecossistema Java está se adaptando às tendências emergentes como inteligência artificial e modelos de linguagem grandes (LLMs).
Ele é um recurso novo que está sendo desenvolvido dentro do Spring, que vem trabalhar em cima desse protocolo MCP, como protocolo de comunicação com as LLMs das IAs.
O objetivo é oferecer uma camada padronizada para comunicação com diferentes LLMs do mercado, facilitando a integração de aplicações Java com soluções de IA.
Micronaut e outros frameworks
Além do Spring, outros frameworks como o Micronaut estão ganhando espaço no ecossistema Java, especialmente para o desenvolvimento de microsserviços.
O Micronaut tem um desempenho muito maior do que o Spring, quando citamos o tempo de boot, o tempo de alguns requests.
Estes frameworks complementam o Java, oferecendo soluções otimizadas para casos de uso específicos e contribuindo para a versatilidade da plataforma.
Estratégias para modernização de sistemas legados
Um dos maiores desafios para organizações que utilizam Java é a migração de sistemas legados para versões mais recentes da plataforma. A transição do Java 8 para versões como o Java 17 ou 21 pode ser complexa devido às mudanças significativas na plataforma.
Na prática, fica mais fácil tentar atualizar diretamente de versões muito antigas para as mais recentes de forma gradual.
Em alguns casos, pode ser mais viável reescrever partes do sistema ou criar aplicações com versões mais recentes do Java, mantendo o sistema legado em operação até que a transição seja completa.
Como lidar com breaking changes e dependências obsoletas
As quebras de compatibilidade (breaking changes) são inevitáveis em atualizações significativas. Marcos Miranda trouxe um importante insight no nosso episódio #213, mostrando que a documentação oficial do JDK é uma fonte valiosa para entender essas mudanças.
Para ele, as informações são dispostas de uma maneira que facilita a compreensão de cada release que eles lançam. O maior benefício é trazer muito bem documentado os novos recursos, assim como as depreciações.
Ferramentas de análise estática e testes automatizados também são essenciais para identificar problemas de compatibilidade antes de realizar a migração em ambientes de produção.
Qual é o futuro do Java para os desenvolvedores?
A princípio, o Java continua evoluindo, com melhorias previstas para as threads virtuais no Java 24 e outras inovações em desenvolvimento. O Project Loom, que introduziu as threads virtuais, é apenas um exemplo dos projetos que estão moldando o futuro da plataforma.
A Oracle vem se mantendo competitiva com a linguagem para mantê-la atual, destacando como ela responde às demandas do mercado.
Ainda assim, para se manter atualizado sobre as novidades do Java, os desenvolvedores podem recorrer à documentação oficial, comunidades como o Java User Groups (JUG), e criadores de conteúdo especializados.
Como perspectiva para os desenvolvedores, o mercado para programadores Java continua aquecido, especialmente em ambientes corporativos onde a robustez e a estabilidade são prioritárias.
Apesar disso, mesmo com a ascensão de novas linguagens, o mercado para desenvolvedores Java continua aquecido, especialmente em ambientes corporativos onde a robustez e a estabilidade são prioritárias.
Conclusão
Enfim, o Java não é apenas uma linguagem que sobreviveu é uma plataforma que se reinventou continuamente para se manter relevante e competitiva.
Para desenvolvedores em início de carreira ou profissionais experientes buscando expandir seu conjunto de habilidades, o Java continua sendo uma aposta segura. A demanda por desenvolvedores Java qualificados permanece forte, especialmente em setores que valorizam sistemas de alta performance.
É uma linguagem que está se tornando uma tecnologia muito competitiva, muito atual. Longe de ser uma relíquia do passado, ele está ativamente moldando o futuro do desenvolvimento de software, provando que mesmo após 30 anos, ainda tem muito a oferecer ao mundo da tecnologia.